09 novembro 2006

Os Portugueses II


Os portugueses, entretidos na classificação do seu passado, lá vão enterrando o futuro...
Não admira! Depois de elegerem Luis de Camões e António Salazar para o top + da nação pouco lhes resta senão o abandono do futuro.
Talvez nunca tenhamos lido, ou compreendido verdadeiramente, as palavras de António Vieira acerca da História " A história é importante para aprender com o passado, compreender o presente e projectar o futuro..." . Parece simples ...
Que seria de uma pessoa sem memória? Seria certamente como um recém nascido, viveria uma existência onde a experiência não tinha lugar. A experiência e o consequente conhecimento que advém desta, é construido com base na memória. Sem memória o mundo e os Homens nunca teriam evoluido, porque não teriam nunca adquirido o conhecimento que advém da experimentação. As nações não são diferentes das pessoas!
Esta pequena reflexão surge pelo conhecimento que tive do último relatório anual do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
Segundo este indicador elaborado pela ONU, Portugal desce em 2006 dois lugares consecutivos, do 27º para o 29º respectivamente. É espantoso como um país da Europa Ocidental, que recebe fundos estruturais há duas décadas para o seu desenvolvimento, e cujos governos fazem reformas sucessivas em todas as áreas da governação, desde a agricultura às finanças, da defesa à economia, da educação (quantas foram já??) à saúde; possa, em apenas 3 anos descer 4 lugares no ranking do desenvolvimento, ao ritmo assustador de um lugar por ano!
O mesmo país que não é capaz de se reformar e crescer ( não em termos económicos, mas sim em desenvolvimento humano) é o mesmo país saudoso de António de Oliveira Salazar.
Não se trata apenas de um problema de memória. É mais grave.
Trata-se, isso sim, de um problema de maturidade, um desejo absoluto de não querer crescer, de não querer lembrar. À mínima contrariedade recorre-se à autoridade do Pater, do comando invisível e exterior e, portanto, à desresponsabilização individual.
Portugal tem sindroma de Peter Pan!

13 comentários:

Anónimo disse...

Lá está: se um certo senhor poisa hoje onde poisa é só porque o português precisou, no caos entretanto semeado, de um pai tirano que tutele a república. Hoje, este, amanhã, outro, no passado, aquele que se sabe.
O nosso país-criança pede ajuda desesperada a um pai, porque está cansado do colo da mãe. Quando a criança se sente adolescente e se rebela na ruas, que faz o papá atacado? Infantiliza a criança, para melhor controlar a afronta.
Diz à criança que está apegada ao passado e não percebe nada do mundo em que vive.
E assim vamos.

Caetana disse...

E a tia também tem imenso esse sindrome!!! a tia adora um rebelde numas ceroulas, ainda mais se forem verdes que está imenso na moda! Agora, descer uma lugar por ano??? quer dizer que a tia qualquer ano destes, quando for gritar pelo seu Sporting, já não está no camarote mas está no relvado??? Ah querido mas que ideia brilhante! a Tia só espera viver o suficiente para chegar ao balneário!

marcela castro disse...

Quisiera plantear una duda que tengo cada vez que leo sobre estos temas: ¿realmente ha beneficiado a Portugal ser miembro de la Union Europea? ¿Acaso el tratar de cumplir con los estandares exigidos no le puede estar provocando problemas con su propia y particular realidad?

PBH disse...

Caro anónimo;
Não sei se compreendi exactamente o que queria dizer com o seu comentário!
Não sou eu que digo que a criança está apegada ao passado, é ela que a ele recorre sempre que se sente perante um desafio.
A questão de fundo é muito complexa e não é nova na mentalidade cultural e política portuguesa.
A criança nunca se rebela suficientemente nas ruas, dá toques apenas, até que o perigo se revele, e aí, recolhe-se discreta à casa paterna..
O povo que desce lugares consecutivos no índice de desenvolvimento humano, é o mesmo que vota massivamente no Dr. Salazar para um concurso de televisão.
Recorre por isso ao passado, nunca projectando o futuro!

PBH disse...

Já agora, e se me puder esclarecer, quem é o o "pai tirano" que hoje tutela a República?
Fiquei curioso!

PBH disse...

Cara Marcela
Concerteza que Portugal têm retirado enormes benefícios da sua adesão à UE. Isso é evidente.
A realidade própria e específica de Portugal, assim como de qualquer outro país ou cultura, só faz sentido ser pensada na sua relação com o global. De outra forma não existe!

Anónimo disse...

Quando um homem é eleito pela esmagadora maioria dos portugueses para magistrado supremo da nação, torna-se figura tutelar. Quando esse é o mesmo homem que no passado mandou polícias bater em polícias que se manifestavam na rua e, mais tarde,mandou polícias bater em cidadãos que se manifestavam numa ponte (não tendo escrito sobre isso mais do que três linhas em certa autobiografia), torna-se pai tirano.

RMG disse...

Uma coisa é tirania, outra bem diferente é a autoridade do Estado e a manutenção da ordem pública. Era só o que faltava que um conjunto de pessoas, sejam elas quem forem, possa bloquear uma das principais entradas de Lisboa em nome de uma qualquer reivindicação.

PBH disse...

Parto então do príncipio, meu caro anónimo, que qualquer Chefe de Estado eleito em Democracia neste país torna-se figura tutelar. Tutelar do Estado? Pois sim, se foi eleito para esse efeito...
Mas Pai?? Pai de quê? da Nação? Do Estado?
Continuo sem perceber a relação...

Anónimo disse...

Vamos ver se nos entendemos: quando digo que o PR em Portugal é figura tutelar, não estou a fazer qualquer crítica. Tutelar algo é mandar em algo e ele de facto manda. Diz-se que pouco, mas manda. Manda, e isso bastaria para dizer que manda muito, nos militares. Ok? E quando digo que Cavaco foi pai tirano enquanto primeiro-ministro estou a fazer uma crítica. Ele foi pai tirano pq tratou os portugueses como imbecis. Não em tudo, com certeza que não. Mas no essencial, foi isso que fez. Deu-lhes a lua (os anos do dinheiro em Portugal são os anos do cavaquismo, mais conjuntura, menos conjuntura), mas não pensou, ou não quis pensar, que este povo não tinha amadurecido o suficiente para usar esse dinheiro com cabeça. aliás, este povo nunca usou dinheiro algum com cabeça.
E enquanto lhes dava a lua, por um lado, enterrava o país, por outro. Foi Cavaco que começou a enterrar o estado-providência, o sector público (não é verdade que contratou milhares de funcionários públicos, que acabaram por ser parte da classe média que o ajudou a manter-se absoluto?)...
O pai tirano não lia jornais, ignorava o país, governava como governa o pinto de sousa: quero, posso e mando. E o problema é que os portugueses até gostam disso.
Estamos esclarecidos sobre o que penso?
Este post é escrito ao sabor do teclado. Não estará muito inteligível.

PBH disse...

A origem deste post está no último Relatório das Nações Unidas para o Desenvolvimento em que Portugal desce 2 lugares num só ano.
Fiz depois uma relação entre a capacidade de reforma de um país e o seu refúgio numa ideia, ou ideias, de suposta estabilidade e progresso, recorrendo ao passado e às figuras que tutelaram, essas sim de forma absoluta, o Estado e o país.Subjaz a este post uma crítica ao passadismo e a sua relação com a falta de capacidade de construir um futuro de desenvolvimento sustentado.
Quanto ao resto convém esclarecer:
existe uma diferença fundamental entre Cavaco Silva e Oliveira Salazar. O primeiro é um político, goste-se ou não dele e das suas políticas, que nasceu e exerceu o poder no quadro de um regime democrático. O segundo foi um ditador.
Essa diferença fundamental é importantíssima.
O meu caro(a) anónimo poderá não gostar do actual Chefe de Estado, e pensar inclusivé que aquilo que o fez ganhar as eleições foi um sentimento de "país-criança". É legitimo que assim pense, mas não confunda...
Além do mais, Cavaco Silva é um homem do seu tempo, tal como Salazar o era. A conjuntura de Portugal e do mundo em 1932 ou em 2006 é totalmente distinta.
Se o Chefe de Estado manda, dentro dos poderes que a Constituição lhe confere, pois bem. É para isso que lá está e é para isso que lhe pagamos o ordenado.

Anónimo disse...

Reparo que nem PBH, nem RMG responderam directamente aos casos particulares apontados como exemplo da tirania de Cavaco enquanto primeiro-ministro. Não cometerei a desonestidade intelectual de dizer que por não terem respondido directamente estão de acordo com as críticas. Lá saberão por que o não fizeram.

Quanto ao facto de Cavaco ser homem do seu tempo e Salazar também: não sei o primeiro o é por inteiro; o segundo não o foi certamente.
Porque:
a) entendo que homem (político) do seu tempo é aquele que, sendo fruto de uma época na forma de pensar e agir, está consciente dos problemas verdadeiros das pessoas e tem propostas concretas e sensatas para os resolver; é aquele que sabe o que vem aí e age junto da sociedade para a preparar ou sensibilizar para os problemas do futuro;

b) a passagem de Cavaco pela presidência do conselho de ministros coincidiu com a abertura do país a realidades europeias e globais. Ele geriu o país nesse contexto. Acho que quase sempre mal, mas pouco importa agora. Não esqueço, porém, que era e é um homem conservador, de personalidade fechada, incapaz de um improviso, de um deslize, de uma nota mal tocada. No tempo em que era primeiro-ministro desconsiderava a comunicação social. Hoje, como PR aprendeu que o não deve fazer. Mas segue fechado, taciturno, empedernido. Nos chamados "roteiros", que tem promovido, não foge um milímetro do guião. Que não soe a mau gosto a apreciação: o cabelo hirto e lacado de Cavaco e a sua voz monocórdica são os dois sinais exteriores mais evidentes daquilo que ele é por dentro.
O apelo recente que fez para o combate à corrupção mostram que não dorme em serviço. O facto de ter publicado dois livros autobiográficos antes de se candidatas a PR também. Mas isso não o torno homem do seu tempo. Julgo que tem laivos de contemporaneidade. Somente isso.

c) Salazar esteve tanto tempo à frente do governo que é impossível considerá-lo homem do seu tempo. Tê-lo-á sido, sim, no início. Mas 40 anos é muito ano. Alguém honestamente sabe, ao fim de décadas a circular nos corredores do poder, que país é o país que tem à frente? Alguém que monta um sistema repressivo e censório consegue ver para lá de uma realidade fabricada por esse sistema? Alguém que raramente sai do país, que vive entre reuniões fantoche com ministros fantoche e embaixadores fantoche, alguém que.... Enfim... Um homem destes vive num não lugar, num não tempo, criado já nem se sabe em nome de quê.

PBH disse...

Caro anónimo (a)
Se não respondi directamente às suas considerações sobre aquilo que intitula de "tirania" de Cavaco Silva enquanto PM,foi apenas porque não quis tornar os comentários a este Post numa análise da política governativa de Cavaco Silva.O tema do post não era esse e não me interessou fazê-lo.
Reparo no entanto que pretende conduzir a discussão nesse sentido, e faço-lhe uma cedência, ainda que considere mais interessante discutir o tema do Post e do "sindroma Peter Pan" de uma forma mais abrangente e não focalizada nesta o naquela personagem.
Quando afirmo que Oliveira Salazar era um homem do seu tempo, quero dizer que ele nasceu e cresceu como político numa conjuntura nacional e internacional que lhe permitiu a criação de um regime com as caracteristicas do Estado Novo. A mesma criação, de um Estado Corporativista de Partido Único, seria impensável em 2006, mas era perfeitamente possível, e até desejado, por uma camada muito significativa da população portuguesa em 1933.
A política e os políticos não nascem do acaso; eles são fruto de uma sociedade e de uma cultura.Se exercem o poder, só o exercem com o beneplácito popular e de uma parte significativa da elite dominante.
Da mesma forma, Cavaco Silva é um homem do seu tempo, e assim, fez crescer e exerceu o seu poder político dentro de uma determinada conjuntura nacional e internacional, naturalmente muito diferente daquela de 1933.
Cavaco Silva, goste-se ou não se goste do político e/ou do homem, repito, foi eleito em eleições livres e democráticas por três vezes, sendo que das duas últimas, foi eleito por maioria absoluta.
Oliveira Salazar nunca concorreu a eleições, nem livres, nem democráticas. Esta distinção convém ter presente, independetemente de gostarmos ou não dos políticos em causa!
De facto, concordo consigo quando afirma ser dificil considerar Oliveira Salazar um político do seu tempo, quando a pessoa em causa governou um país durante 40 anos em ditadura.Quando referi esse aspecto, referia-me ao Salazar de 1933 e não ao de 1968.
Quanto a Cavaco Silva, e contínuo a não compreender esta análise comparada, considero-o um homem contemporâneo sem dúvida.
As considerações estéticas que faz da personalidade em causa, dizem-me pouco. Contudo, estou absolutamente convencido de que Cavaco Silva personifica um determinado género de político que caracterizou a Europa da década de 80 e 90, e de que ele não foi caso único, e muito menos inédito. Considera-lo um tirano por não dar à comunicação social a importância de que ela se arroga, não considero defeito por aí além.
A comunicação social, embora tenha dado um importante contributo à consolidação da cultura democrática em Portugal, não é exemplo acabado de idoneidade, deontologia profissional nem razoabilidade.Além do mais, e para desgosto da classe, a comunicação social, não é, felizmente, poder executivo nem judicial em Portugal.
Não vejo porque razão, qualquer cidadão, político, magistrado, militar ou pensionista, tenha de dar esclarecimento sobre tudo aquilo que a comunicação social considera importante perguntar ou saber.
Um PM ou um PR não são obrigados a viver em função da comunicação social, nem é suposto que assim seja.
Não considerarei a sua desonestidade intelectual de interpertar os silêncios dos comentadores deste post, nem o facto de conduzir os comentários para uma discussão que pretende levar a cabo, independentemente do tema inicial.
Contudo, terei sempre muito gosto em discutir consigo todos os temas. Foi para isso que este Blog foi criado.