20 outubro 2006

Mau serviço, Sr. Ministro!


A decisão do Ministro da Economia não podia ter sido pior. Vejamos: até este ano, a lei impedia uma actualização de preços acima da inflação – quer dizer, consumíamos electricidade com desconto. Uma vez que “não existem almoços à borla”, é certo e sabido que alguém terá de pagar esse desconto, que assume a culpa de um deficit tarifário de umas centenas de milhões de euros. Vendo bem, é natural que os produtores de electricidade não queiram vender abaixo do custo. Ou não? Quem vai pagar? O Estado, claro, porque “pediu” esse desconto em nome dos consumidores. Isto quer dizer que o dinheiro dos nossos impostos vai ter de pagar o desconto que nos fazem na factura da electricidade. Faz sentido?
A ERSE tinha razão. E também a tinha o Secretário de Estado Castro Guerra, apesar de infeliz na escolha das palavras. Portugal só produz 40% da energia eléctrica que consome – a restante é produzida a partir do carvão e do gás natural, que são poluentes e que têm de ser importados (e o preço do gás natural não pára de aumentar). Por outro lado, o Governo só consegue estimular o investimento em energia eólica (que é caro) se garantir aos seus produtores que lhes compra a electricidade a uma tarifa muito elevada, que se repercute no custo final. Tudo aponta para que o custo da electricidade continue elevado.
Mas, perante este cenário, o Ministro da Economia não disse «Vamos acabar com o desconto e consumir electricidade ao preço real, para estimularmos a poupança de energia e a eficiência energética e para não aumentarmos um deficit tarifário já bastante elevado». Antes disse algo que equivale a «Vamos mas é manter a electricidade a um preço artificialmente baixo, para podermos continuar a consumir à bruta sem nos doer na carteira. O deficit? Alguém o pagará mais tarde».
O País perde. Perde porque não percebe que não pode continuar a consumir acima das suas posses, porque não percebe o erro de pedir emprestado às gerações futuras para pagar o seu consumo actual. Perde porque não investe a sério na eficiência energética, porque uma electricidade mais cara racionaliza o consumo e combate o desperdício. Perde porque não percebe que, para vencer a crise e voltar a crescer tem de fazer escolhas. Mau serviço, Sr. Ministro!

4 comentários:

PBH disse...

Meu caro DRS
Concordo absolutamente! Alguém te de pagar as contas de electicidade e ninguém melhor que quem a consome.

O mesmo se dirá do gás, da água, das auto-estradas, das escolas, dos hospitais, dos teatros, dos museus, do futebol, da justiça, da segurança e mais uns quantos serviços avulsos.

O melhor mesmo é privatizar tudo e irmos de férias! Todos!
Cidadãos, políticos, magistrados, policias e militares, advogados e diplomatas, professores e médicos, artistas e diabretes!

Tudo privatizado e com muitos lucros e emprego para todos.
No final demitimos o governo e as instituições, retirando a politica do cenário para deixar brilhar a economia eternamente!!

E assim seremos felizes, ricos e gordos!

DRS disse...

Muita bulha por nada, PBH. Esse discurso catastrofista ao que vem? Por eu ter dito que não se justifica que o Estado subsidie o consumo de electricidade pelos cidadãos e pelas empresas? Por eu afirmar que se a electricidade não for suficientemente cara, os consumidores em geral nunca aprenderão a poupá-la e a consumir racionalmente energia? Por eu pensar que os dinheiros públicos não chegam para tudo?
Já agora: quantos museus, quantas colecções, quantas companhias de teatro e de dança seriam apoiados se o Estado não andasse a subsidiar os preços da electricidade?
Quem não tem dinheiro, não tem vícios!!!!!

PBH disse...

É uma questão de equilibrio e de bom senso.
Aumentos de 16% na electricidade, de uma só vez, não me parece que venha ajudar ao tão desejado crescimento económico.
Quando as familias portuguesas estão altamente individadas e a indústria a sofrer graves constrangimentos, aumentos dessa ordem não me parecem positivos, ainda que concorde com a questão de fundo.
Se todos pagarem a conta que devem, o sistema é mais justo e funciona melhor, ao mesmo tempo que o Estado se vê livre de mais uma despesa.
Seria bom que o governo decidisse canalizar as verbas que deixa de pagar à electricidade para a cultura. Se assim fosse, até acredito que o povo pagasse a conta com outros olhos.
Boa ideia!

DRS disse...

Voto nessa, PBH.