30 janeiro 2007

Hesitação referendária...

Tinha prometido, em tempos, um post sobre a questão do próximo referendo ao aborto. Nele procuraria explicar o meu sentido de voto, e atendendo às posições já expressas neste blog, seria mais um contributo para a discussão.

Acontece que chegado a este momento, ainda hesito sobre o meu sentido de voto.

Há oito anos, votei “não” no referendo. Passado este tempo todo, quase 10 anos, constato que pouco ou nada mudou.

O País continua sem uma verdadeira política de educação sexual, os incentivos à maternidade/paternidade são a mesma miséria de sempre, os benefícios fiscais às famílias mais numerosas são ridículos, os processos de adopção continuam a demorar eternidades, o Estado não é capaz de garantir a segurança e o bem estar das crianças órfãs ou abandonadas nas suas instituições, vide caso Casa Pia e outros que lhe seguiram, etc.

Por outro lado subsiste sempre a questão da vizinha Espanha.
Basta percorrer uns quantos quilómetros e estamos em terras de Suas Majestades os Reis Católicos, onde calmamente e em segurança se pode abortar em clínicas especializadas para o efeito.

Nos últimos anos, sempre que têm ocorrido julgamentos de casos de aborto, discute-se a penalização do mesmo, e raros são os responsáveis, políticos e não só, que vêm dizer que apoiam os julgamentos. Bem pelo contrário.

Não falo já das questões complicadas de pais que abusam sexualmente dos seus próprios filhos ou que lhes infligem maus-tratos que por vezes conduzem à morte. Tudo isto mais uma vez perante a impotência ou mesmo incompetência das autoridades. Nem me refiro mesmo às dezenas de bebés que todos os anos são abandonados em caixotes do lixo ou à porta de instituições sociais, frequentemente apenas com uma réstia de vida.

Perante este panorama que vos descrevo, estava determinado a votar “sim” neste referendo. Não que ache que isso resolva completamente o problema, como é óbvio, mas a actual legislação também se tem mostrado totalmente ineficaz. E o Estado não tem cumprido a sua parte e a sua responsabilidade acrescida pelo resultado do referendo de 1998.

No entanto, há uma questão que me tem suscitado dúvidas, e que se prende com uma das premissas da pergunta: “por opção da mulher”.

Quer isto dizer que a mulher, desde que seja essa a sua vontade, poderá realizar um aborto. Então e o pai? Não tem nada a dizer? Se são precisos 2 para fazer, por que razão há de ser só 1 para desfazer?

Em conversa recente com um amigo meu, que é jurista, ele demonstrava-me, por absurdo, o caricato da situação a que poderemos chegar:
Eu, que sou casado em regime de comunhão de adquiridos, se quiser vender o carro (comprado após o casamento) tenho de pedir o consentimento da minha mulher. Já ela, se pretender abortar de um filho nosso, eu não sou tido nem achado! Não acho normal!

Resumidamente: se a mãe quiser ter a criança e o pai não, ela nasce. Se a mãe não quiser ter a criança e o pai quiser, ela não nasce! Não acho normal!

Perante tudo isto, acho que irei mesmo votar “em Branco”… Mas ainda estou na dúvida...

12 comentários:

ablelam disse...

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ASD disse...

Pelo que expões aqui, sendo a pergunta aquela que é, e tendo o voto em branco ou nulo como uma possiblilidade democrática, o voto no não seria o mais razoável e coerente com a tua posição e as tuas dúvidas mais do que legítimas.
Depois do referendo de 98 foram criadas dezenas de instituições de apoio a pessoas (bébés, mães, pais, famílias) que se viram, por algum motivo, envolvidos numa situação como aquelas que estão em discussão. Mas não vou nem quero entrar em debate com números, nem tão pouco fazer a chamada guerra dos números.

O que foi feito é insuficiente é, que a Sociedade Civil tem feito mais e melhor do que o Estado é verdade. Que nenhuma mulher deve ser condenada a uma pena de prisão por ter recorrido ao aborto não deve. Que o Estado e a Lei não devem dar um sinal de desresponsabilização e de desrespeito pela vida intra-uterina não devem. Por isso prisão não, mas punir ou sancionar, de uma forma preferencialmente pedagógica, seria o mais acertivo nestes casos.
Como estes aspectos não estão consagrados nem assegurados numa resposta de sim à pergunta do referendo só me resta votar não e empenhar-me civicamente na defesa do direito à vida e no esforço no sentido de uma educação sexual e planeamento familiar efectivos e responsáveis.

Caetana disse...

A tia era incapaz de perguntar aos tios pais dos piquenos da tia se queriam que a tia tivesse abortado porque eles diriam que sim e a tia ADORA os Piquenos.
E verdade que quando são um trabalhão e cheiram pessimamente enquanto não falam e depois dão o maior jeitão assim que aprendem a fazer Cosmos e Salmão Fumado... VALEM SEMPRE A PENA!!! PALAVRA DA TIA!

marcela castro disse...

RMG, indicas un asunto muy interesante: si, cuando uno esta casado en regimen mancomunado no puede disponer de sus bienes, pero para abortar es tema de mujer. Claro, porque en el 99% de las legislaciones, la mujer es la que procrea. No hay responsabilidad por parte de los hombres (basta con ver como en caso de separacion los tribunales dan la custodia a la madre)
Si esa postura no te agrada, entonces intenta cambiarla. Porque esa es la que esta provocando abortos: la irresponsabilidad del hombre en materia de procreacion. Eso conlleva un cambio en la mentalidad, que es evidente que no se conseguira con este referendo, ni con ninguno que considere el aborto como "tema de mujeres" o "avance en una sociedad moderna"

Anónimo disse...

vou votar sim no dia 11 de fevereiro e li com todo o interesse este post. devo dizer, se ajuda, que não me parece que a pergunta do referendo pudesse dizer "por opção do mulher e do homem" porque, como se sabe, muitas mulheres engravidam depois de sexo ocasional......
além disso, a pergunta do referendo é geral e abstracta. será preciso aguardar que a AR legisle sobre a questão. e quando legislar terá de obrigar os estabelecimentos de saúde a prestar aconselhamento médico e/ou psicológico às mulheres. criminosa será a lei decorrente de uma eventual vitória do sim que permita um "quero abortar" sem mais nada. nesse aconselhamento, parece-me que qualquer médico ou psicólogo, perante uma mulher casada ou com uma relação estável, deve chamar o homem a dizer de sua justiça.
ainda que me pareça que a opinião das mulheres é sempre mais relevante do que a do homem, porque são elas que ficam grávidas e é nelas que se dão as alterações físicas e psicológicas decorrentes da gravidez.

Lídia Nabais disse...

SEM HESITAÇÂO: SIM. Ser mãe sempre foi o meu maior desejo na vida. Concretizei-o, aliás, recentemente e posso dizer que não há experiência mais fascinante e mais bonita (é um adjectivo que raramente utilizo mas que aqui me parece o mais indicado) na vida. Partilho cada minuto desta magnífica experiência com o pai da criança, com quem sou casada e por quem nutro igualmente um amor incondicional. E toda esta história é perfeita! Mas podia não ser...
A minha iniciação sexual teve lugar antes da divulgação da pandemia da SIDA, da qual rapidamente tive conhecimento porque um dos primeiros casos me levou um familiar próximo. Nesse tempo, os preservativos não se vendiam senão sob o olhar reprovador do farmacêutico a um/a adolescente com hormonas fervilhantes e o coito interrompido era prática generalizada. Vivi com angústia alguns dias em que o período se atrasou e em que pensava no que seria da minha vida caso engravidasse. A resposta era muito difícil e os meus namorados de então dormiam tranquilamente enquanto eu passava essas noites em claro. Com a introdução do preservativo (sempre a meu pedido, assinale-se) já em idade mais madura, tive um acidente que novamente me mergulhou em angústia. Porque sou protegida pelos astros, nunca engravidei, nem adoeci: por SORTE.
Assim sendo, porque razão condenaria outras mulheres que, não sendo tão bafejadas pela sorte, decidem COM MUITA MÁGOA, optar por continuarem os seus estudos, por viverem em pleno a sua adolescência, por terem no fundo uma segunda oportunidade, terminando uma gravidez indesejada?
Tentarei educar a minha filha, desde muito cedo, para que saiba viver uma sexualidade responsável, mas também outras filhas de outros pais poderão não ter esta ajuda dos seus progenitores e não as condenarei por isso.
No dia 11 de Fevereiro, como em 98, lá estarei convicta e responsavelmente a votar sim à alteração de uma lei que nos coloca na cauda da Europa, acompanhados apenas por um país em guerra civil por motivos religiosos em pleno século XXI.

Lídia Nabais disse...

Quanto à hesitação referendária do autor do post: meu caríssimo RMG, tive o privilégio de te conhecer há relativamente pouco tempo, mas cedo me apercebi de que eras diferente da generalidade dos homens com que me cruzei na minha vida. Não me parece que te devas pautar pela integridade que te reconheço para avaliares a responsabilidade de outros. Não são os homens que se vêem confrontados com uma gravidez indesejada, nem serão eles que terão de arcar com as suas consequências, com os estigmas sociais e com as dificuldades familiares dela resultantes. Espero que na próxima semana venhas a reponderar a tua posição e que votes em consciência.

epb disse...

Este texto define a minha própria hesitação, não o diria melhor.Os comentários também colhem o meu aplauso e alguns até me fizeram abrir a boca de espanto mas...ainda não vi a luz de que preciso para escolher sim ou não porque também em muitas ocasiões me foi dificil escolher entre o preto e o branco, porque há sempre o cinzento de que ninguém se lembra, entre sim e não seria nim e a minha vontade seria dizer sim porque...e dizer não porque...mas como não pode ser assim lá terei de pedir aos céus para, mais uma vez, me iluminarem.

PJ: disse...

Deixo aqui o link para o meu blog onde partilhei também a minha dúvida sobre a questão proposta no referendo:

http://xuacxuac.blogspot.com/2007/01/questo_25.html

Anónimo disse...

será que a "lídia nabais" teve tantos namorados assim?

Anónimo disse...

Será que os namorados da "lidia nabais" só dormiam? Ou sabiam o que é votar? Ou que é uma cruz? Ou escrever? Ou...?

Anónimo disse...

"Vivi com angústia alguns dias em que o período se atrasou e em que pensava no que seria da minha vida caso engravidasse. A resposta era muito difícil e os meus namorados de então dormiam tranquilamente enquanto eu passava essas noites em claro" ???????????????????????????????????????????????????????????????