05 fevereiro 2007

Não!

Hesitei durante muito tempo em entrar nesta discussão. O tema não me agrada, as posições a que tenho vindo a assistir durante a campanha para o Referendo, de um lado e de outro da barricada, não me agradam, a pergunta não me agrada, o posicionamento dos partidos não me agrada.
No entanto, e porque defendo que todos devem ter uma opinião e tomar partido nas decisões que a sociedade democrática nos impõe, decidi escrever este post e tomar a minha posição.

A questão do Referendo à interrupção voluntária da gravidez coloca-nos perante dois conceitos fundamentais e essenciais, políticos e éticos: O conceito de defesa da vida humana, e o conceito de Liberdade! Decidir sobre um em desfavor do outro é, não só praticamente impossível, como traz consigo complexas consequências.

Apelar ao voto no "SIM" alegando que se trata de uma despenalização e descriminalização justa de uma condenação terrível é razoável. De facto, exceptuando alguns fundamentalistas sem expressão, não conheço ninguém que aprove a condenação à prisão de mulheres que tenham praticado o aborto. Não só não conheço ninguém que promova tal condenação, como para prová-lo estão as cadeias portuguesas, que não têm como reclusas mulheres condenadas pela prática de tal crime!
Mas então porque não descriminalizar de todo? Porque não se assume a defesa do valor da Liberdade na sua totalidade e se promove o aborto livre, sem limites temporais?
O argumento de que até às 10 semanas é válido e depois deixa de o ser é profundamente demagógico e incoerente. Porque razão uma vida humana só existe a partir de determinado momento decidido pela lei? Parece-me uma ideia básica. Ou existe, ou não existe! Nada mais há a acrescentar. Se se decide que existe desde a concepção, então é sempre uma vida humana, se se decide que só é vida humana após o nascimento então que se assuma.
Não tenho qualquer dúvida, de que a aprovação da interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas é o primeiro passo para a liberalização total do aborto. Mais tarde ou mais cedo assim será. E já não será decidido em referendo, mas em sede de Parlamento.
Outro dos argumentos dos defensores do "SIM" prende-se com a questão da liberdade da mulher. Tenho ouvido e lido de tudo. Que a mulher pode, que a mulher decide, que à mulher compete, que à mulher assistem direitos. Não tenho ouvido, contudo, nenhuma defesa da liberdade daquele que é o mais afectado com esta decisão. A criança concebida.
Temos, portanto, do lado do "SIM" a defesa de uma ideia intimamente ligada ao conceito de liberdade. Liberdade de decisão.

Pelo lado do "Não" outro valor ressalta na discussão. O da defesa do direito à vida.
Ninguém tem dúvidas de que o valor da vida humana é o bem mais precioso sobre o qual se erguem todos os conceitos filosóficos, políticos, religiosos e sociais. A sociedade existe porque existem Homens! A defesa da sua integridade, a promoção dos seus direitos, a exigência dos seus deveres, é a base da construção social humanista que defendemos enquanto democratas.
O Homem é a base. Não há outra. A ciência que não serve o Homem, a política que não serve o Homem, a filosofia que não defende e promove o Homem, não existem como tais!
O argumento de que a vida humana existe desde o momento da sua concepção é para mim válido e não concebo outro diferente deste. Se assim não fosse, se se impusessem limitações temporais ao conceito de vida humana então um largo conjunto de situação tinham porta aberta para serem discutidas e promovidas.
Condeno profundamente a ausência de políticas concretas de Educação Sexual nas escolas, que deveria existir, como disciplina obrigatória há 20 anos, a falta de uma real política de planeamento familiar, incentivos reais à maternidade e à paternidade, o apoio a orfãos e a lentidão dos processos de adopção. Mas tudo isto, felizmente ou não, ainda está nas nossas mãos melhorar. Haja vontade e coragem!

Em que ficamos? Defendemos a nossa Liberdade enquanto cidadãos ou defendemo-nos das limitações à nossa própria existência que se nos impôe? Parece complexo.

Tenho por adquirido, pelas razões enumeradas, de que não há sociedades humanas sem Homens. A sua liberdade, política, religiosa, social é um pilar que demorou séculos a conquistar, mas que não é perene. A história tem-nos ensinado isso, e por vezes a que preço!
Mas as liberdades vão e vêm, existem e não existem consoante as conjunturas. É uma luta constante e permanente de cada um e de todos em conjunto.
Em nome dessa Liberdade, coloco-me ao lado daqueles que menos têm visto os seus direitos defendidos neste debate. O seres Humanos concebidos. Não recuso os direitos dos pais, mas esses têm com que se defender. E não só as mulheres, porque não acredito nessa ideia de que à mulher são devidos todos os direitos. Desculpem-me, mas não fui eu que inventei as regras da natureza. A concepção implica três pessoas e não uma. Uma mãe, um pai e um feto.
Ao defender a Liberdade destes Seres indefesos, defendo também a ideia primordial do direito à vida.
Pela mesma razão que defendo intransigentemente a condenação da pena de morte, o Estado de Direito, a Liberdade dos cidadãos e a promoção de valores humanistas, tomo a defesa dos mais fracos ( permitam-me o tom de paladino) e votarei NÃO neste referendo.
Não há sociedade humana que sobreviva à defesa da Liberadde só de uns, quando aqueles que padecem são os que, com mais razão, deveriam ser defendidos!
O Estado de Direito, defensor primeiro das liberdades e garantias dos cidadãos só pode tomar para si a defesa de todos. Por igual.
A igualdade começa com a VIDA!

16 comentários:

RM disse...

Ninguém, em nenhum sítio que eu conheça, o disse melhor, até agora. Um texto perfeito!

NÃO!

epb disse...

De facto um texto perfeito escrito por um homem de sentimentos bons, com bastante cultura e com dotes oratórios bem conhecidos pelos seus outros escritos, mas...encontro-lhe muita falta de prática de vida, melhor dito muita inexperiência. Quem dera que que a vida fosse um conto de fadas ou que se regesse por estas belas parábolas! A vida é às vezes muito feia, muito cruel e as mulheres são as maiores vítimas dessa fealdade ou crueldade, porque os homens são lestos a fugir a responsabilidades e só quem não quer ser verdadeiro contradiz isto. Sinceramente não sei que faça, é tudo muito bonito e bem escrito mas a vida é tão diferente da leitura! Tenho de pedir a luz divina para decidir o meu voto que ainda não está definido e lamento muito dizê-lo, mas não está mesmo!

PBH disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
PBH disse...

Cara EPB
Agradeço as suas palavras; simpáticas e incisivas como sempre.
Encontra-me falta de prática de vida, inexperiência, di-lo, pela segunda vez. Respeito a sua opinião mas deixe-me que lhe diga, acerca deste assunto em concreto o seguinte.
Tive,desde muito novo, por diversas razões que não são agora importantes relatar, a oportunidade de contactar de perto e de conviver, durante quase toda a minha juventude com situações sociais muito complexas onde mães e filhos viviam histórias dramáticas de doença, miséria, abandono, prostituição, crime, violência. Ajudei a construir um projecto de apoio as estas crianças e mães. O projecto, até então inédito em Portugal, sobrevive ainda hoje e permitiu, ao longo destes quase 15 anos, dar apoio, casa, tratamentos, escolaridade, educação e algum colo a muitas dezenas de crianças, na sua maioria orfãs ou filhas de mães com graves problemas socias e de saúde.
Trouxe muitas destas crianças ao colo e vi-as crescer, algumas infelizmente vi-as morrer, poucas felizmente, visto que na sua grande maioria são crianças doentes.
Apesar de toda esta tragédia social e humana, pude assistir desde muito cedo, ao milagre que é a maternidade, à coragem, à abnegação, ao perdão e à dádiva desinteressada de muitos. Tenho assistido até hoje, como crianças cujo diagnóstico à nascença era muito reservado, a crescer e a revelar talentos como todas as outras crianças e algumas a entrar para a Universidade. As suas mães, igualmente condenadas à prostituição, à toxicodependência, à doença, pelo apoio prestado e pela enorme coragem que lhes deu a maternidade, são hoje mulheres inseridas na vida activa, com casa própria, e o amor dos filhos e dos amigos.
Se lhe conto tudo isto é apenas para lhe dizer que não acredito que razões economicistas, de oportunidade ou de conveniência, sejam alguma vez mais fortes que a coragem destas crianças que lutam todos os dias pela sua sobrevivência de sorriso aberto ao próximo e à vida, nem mais fortes que a mudança que eu tenho observado nestas mulheres pelo facto de terem sido mães, razão primeira pela transformação da sua vida.
Ninguém me contou minha cara EPB, foram os meus olhos e as minhas mãos que lá estiveram.
É dificil? Tem sido muito!
Mas eu ainda vou acreditando que estes contos de fadas e estas parábolas são verdadeiras. Enquanto assim acreditar, e enquanto lhe vir os frutos, assim vou permanecendo.

marcela castro disse...

Caro PBH, ayer precisamente pensaba que no habias dado tu opinion sobre este tema, aunque sabia que dirias que NO, por las razones que has expuesto en tu comentario. Me hubieras decepcionado si fueras a votar Si, no habrias sido coherente.

Pero EPB tiene razon en una cosa: hay idealismo en tu postura. PBH, como expuse en el anterior post,respondiendo a Caetana, la ley es ineficaz, porque actua DESPUES de cometido el asesinato. No disuade, solo castiga, porque no hay una politica gubernamental sobre el tema. Por ende, caro PBH, la ley sera modificada. No este año, tal vez no dentro de cuatro, pero creeme, si la diferencia entre el primer referedum y este es menor, en el siguiente la ley sera derogada.

No quiero que pienses que si estuviera en tu lugar votaria Si, porque la verdad es que votaria en blanco. He expresado mi opinion sobre el tema, pero la realidad es que es irrelevante: el numero de abortos aumenta. No puedo tomar partido cuando una ley impone un castigo para un crimen detestable, contra un ser indefenso, y, sin embargo, no disuade de ese acto.

Lidia disse...

para além dos comentários de epb e Marcela Castro, penso que toda esta discussão acaba por demonstrar as diferentes posturas entre homens e mulheres nesta matéria, não sendo estranho que sejam os primeiros a batalhar mais fervorosamente pelo não - já que é também a eles que a questão menos afecta. Só um homem pode achar que uma mulher passa a abortar ou a fazê-lo mais frequentemente porque é permitido por lei!!! Não se trata de fomentar uma prática que é de evitar e que nunca poderá servir de método anti-conceptivo: trata-se sim de por fim a uma hipocrisia, em que os abortos continuam a praticar-se mas às escuras, com todos os perigos que daí advêm para a saúde das mulheres. Ou em Badajoz!
Há para mim uma nítida violação do direito de igualdade: entre aquelas que têm dinheiro para se deslocarem a uma clínica em Badajoz e aquelas que terão de se resignar às agulhas de crochet!
Sou pela vida: sem dúvida - pela das mulheres que com o coração nas mãos têm de optar por esta prática, muitas das vezes porque se vêm sozinhas a lidar com a situação.
Quanto ao início da vida, às 10 semanas o coração bate, é verdade. Mas não é também verdade que se tem por linear por termo à vida de doentes em morte cerebral, por mais que lhes bata o coração?!
Há vida, mas não é humana enquanto não dispuser daquilo que caracteriza o Homem, e que eu saiba não é o bater do coração que nos distingue dos outros animais.
As histórias louváveis contadas por PBH são efectivamente lindas, mas seria bom contextualizar o meio social e cultural em que as mesmas ocorreram, pois não é seguramente aquele em que sempre me inscrevi.

PSG disse...

Caro PBH

Permite-me que te diga que o NIM não vai ter nenhum quadrado no boletim de voto no dia 11 de Fevereiro.
Como também não está em questão se gostamos ou não da vida e como a defendemos.
Não está em questão, porque a sensatez diz-nos que a vida de uma mulher tem sempre prioridade, é a que existe de facto e é aquela que a ser aconselhada e protegida irá possibilitar que um dia vá ter filhos de facto.

O que está em causa é claro.
Concordar ou não com a despenalização da IVG até às dez semanas, por opção da mulher, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado.
Concordar que se deixem de acusar mulheres por terem feito um aborto.
Concordar que a actual lei desde 1984 não salvou vidas, nem das mulheres nem de futuras crianças.
Concordar que as mulheres devem ter ser tratadas num hospital e não num tribunal.

A actual lei já consagra três excepções à vida e por isso eu não consigo perceber como é que os argumentos do não passam por cima disso ao defender o direito absoluto da vida. Sabes que a actual lei permite que se faça um aborto até às 24 semanas?
E já agora, quando propalam constantemente o valor da vida e como valor absoluto, tenham coragem para defender aquilo que se aplica a um homicídio, ou seja uma pena exemplar e prisão efectiva. Aqui também não devia haver NIM.

Sejamos claros.
A vitória do Não, pese embora eu acreditar que muitos não o queiram, é a manutenção do estado actual de coisas. Desprotecção total da vida humana, Aborto clandestino, impossibilidade das mulheres se dirigirem a consultas especializadas e receberem apoio, etc, etc, etc…
Se o Não ganhar, a vontade dos portugueses é clara e inequívoca, eles não concordam com a despenalização da IVG até às 10 semanas, o que impossibilita claramente qualquer tipo de medidas alternativas ou revisões avulsas do código penal.
A vitória do Não vai impossibilitar que qualquer mulher procure especialistas qualificados a pedir ajuda ou aconselhamento, ou seja vai conduzi-las para a solução clandestina. É o que tem acontecido, quer gostemos ou não.

Quanto às medidas preventivas do aborto. Aqui também falta clareza e até verdade.
Desde 1984 que planeamento familiar, educação sexual e tudo o resto tem sido muito falado e pouco ou nada feito. Uma grande parte daqueles que defenderam o Não em 1984, em 1998 e 2007 são exactamente os mesmos que nunca quiseram apostar nestas politicas sociais e ainda fizeram mais, quando passaram por governos não promoveram uma única politica concreta de apoio à maternidade.

Em 1993, apresentei com outros colegas um projecto de promoção da educação sexual numa escola secundária. Esse projecto contemplava diversas iniciativas e uma delas sugeria que fosse instalada numa WC uma máquina de preservativos. Durante esse ano fui apelidado de muitos adjectivos qualificativos e quantitativos, o que me ajudou a perceber a complexidade dos dogmas sexuais como também a hipocrisia e a cegueira das atitudes. Hoje estamos em 2007 e aquela escola que conheço bem, continua sem uma única aula, projecto ou qualquer coisa parecida com educação sexual.

Maria disse...

Os meus impostos para pagar tribunais que julgam mulheres?
Não obrigada!
Eu voto SIM

ASD disse...

Este debate (por vezes infelizmente com contornos de combate com poucas regras) não é uma questão entre esquerda e direita, nem entre ricos e pobres, nem sequer entre homens e mulheres. É uma questão complexa que nos diz respeito a todos e que implica a defesa e o alinhar segundo prioridades de valores de carácter moral, ético, filosófico e naturalmente político no sentido mais lato do termo. Por um lado é uma questão de consciência individual, no sentido em que o voto, enquanto direito e dever cívicos, deve ser exercido de acordo com essa mesma consciência; por outro é uma questão de sociedade e uma matéria legal, logo diz respeito ao colectivo. Nesse posicionamento de valores prioritários está de facto em questão, como de resto expõe o PBH e já tem sido referido por alguns intervinientes em debates que têm ocorrido, a opção entre a atribuição do lugar cimeiro ao direito à vida ou à liberdade de opção. Reconheço a dificuldade da escolha (mas não a sua impossiblidade) pois são conceitos fundamentais e estruturantes de uma sociedade democrática e de um Estado de Direito.

Quando a pergunta a que todos os cidadãos recenseados terão de responder no próximo dia 11 de Fevereiro nos coloca perante este dilema, à partida difícil e aparentemente impossível de escolher, usa um eufemismo de despenalização, quando a outra consequência, na realidade, será a liberalização e a legalização da prática da interrupção voluntária da gravidez (mas "só" até às 10 semanas... entendo a necessidade prática de se colocar um prazo, mas quando está em questão o direito à vida - que é um processo com múltiplas fases cuja inicial é a concepção - não fazendo muito sentido ser outra, é esse o único prazo que deve ser verdadeiramente relevante) sem qualquer fundamento ou motivo justificativo. Há que agir responsavelmente, assumir as respectivas consequências dos nossos actos e cultivar a responsabilidade. É essa uma das condições essenciais da prática da liberdade. E é imperioso que assim desde o início de qualquer processo, sobretudo neste processo!

É por tudo isto que a Lei deve reflectir normas que valorizem o direito à vida, não devendo dar sinais de desresponsabilização, de permissividade ou passividade perante uma prática como o aborto, a que só se deverá recorrer por motivos verdadeiramente excepcionais. Razões sociais, económicas, familiares devem ter outro tipo de respostas que não a liberdade total de abortar (e já começam a ter, mais por prática da Sociedade Civil do que dos organismos estatais). Assim como resposta específica a uma opção entre direito à vida e direito à liberdade de opção escolho o primeiro, por mais importante que o segundo seja.

Como já tenho afirmado neste forum todas as regras têm excepções, que servem precisamente para confirmar a regra. Neste dilema a regra de defesa da liberdade de opção, perante a circunstâcia muito concreta de confronto com o direito à vida, terá de passar excepcional e justificadamente para um segundo plano.
Que a pena de prisão não serve nem resolve nem sequer dissuade a prática abortiva é uma dado praticamente consensual. Agora que o Estado e a Lei devem pautar-se pela regra essencial e vital do direito à vida, ainda para mais de um ser humano desprotegido e inocente, que é a parte mais fraca e menos responsável por uma gravidez não programada ou não desejada. Deve ter a protecção individual dos progenitores e familiares, mas também a colectiva, precisamente por via legal. Ora uma resposta de "sim" conduz à despenalização da IVG, mas conduz também, e a alta velocidade, a uma liberalização totalmente indesejável do aborto. Será necessário isto para um combate ao aborto cladestino? A meu ver claramente não. Uma resposta de "não" foca a sua prioridade na defesa do direito à vida e na rejeição da legalização generalizada da prática do aborto.

Há este estabelecimento de prioridades em termos de valores fundamentais e ainda para mais, sendo reconhecido que a pena de prisão nada resolve (embora, e repito, o Estado tem de dar um sinal claro que não apoia nem incentiva a prática do aborto!) é desejável, e há fortes indicações nesse sentido, que a anulação da pena de prisão e a prioridade do direito à vida poderão ser harmonizáveis e conciliáveis. Quem diz que não podem ser, que se o "não" ganhar tudo ficará na mesma é por que não quer verdadeiramente resolver a situação em questão.
Só assim o Estado e a Lei podem defender todos por igual, independentemente do sexo ou género e da idade. Só com leis justas e equilibradas a prática da justiça pode, com uma probabilidade maior, ser ela também justa e equilibrada. Se há uma hipótese de isso suceder qual o motivo para se rejeitar à partida essa possibilidade? Por desespero ou teimosia? Por ter como real objectivo a liberalização do aborto?

Despenalizar, assim não! Liberalização do aborto, não obrigado!

marcela castro disse...

Si ud es la misma Lídia Nabais de un comentario anterior, queria decirle que me llamo la atencion lo que dijo.La experiencia personal de alguien que pudo estar en la situacion de quienes en este referendum seran juzgadas me parecio extremadamente interesante.

Solo queria hacerle una aclaracion: si revisa todos los comentarios, desde el primero sobre este tema, vera que hay hombres a favor y en contra. Los moderadores de este blog que votaran que NO lo haran porque son consecuentes, no por ser hombres: estan en contra de la pena de muerte, por ende no pueden estar a favor del aborto. No votaran pensando en terminos de sexo, y si revisa todos los post vera que la principal critica que se hace a este referendum es precisamente el tono sexista. ASD ha apuntado muchas veces a ese aspecto, y hasta donde se es hombre.

Se lo aclaro porque me parece que ver el tema desde el punto de vista hombre esta mal

Lidia disse...

Cara Marcela,
se me referi à questão da perspectiva feminina vs. masculina neste assunto, tem a ver com o post escrito por RMG que centraliza a sua hesitação no facto de a questão a referendo dar a opção «à mulher». Com efeito, reconheço que há homens que defendem o sim, mas recordo que as sondagens de 1998, como as de agora, contabilizam os homens como defensores maioritários do não.
digo mais: quem nos dera haver fundamento para que a opção fosse agora dada aos dois, homem e mulher. quereria dizer que, contrariamente ao que acontece na realidade, as mulheres não se veriam sozinhas, os homens assumiriam as suas responsabilidades, e a taxa de aborto diminuiria exponencialmente.

PBH disse...

Tal como afirmei no inicio do meu post, o assunto desagrada-me. Se tomo posição sobre ele, é apenas porque penso ser esse o meu dever.

As questões economicistas, as questões feministas, as questões machistas, as questões tradicionalistas, as questões de esquerda ou de direita, as questões nacionalistas valem, para mim, em matéria como esta, ZERO.
Penso que fui suficientemente claro no meu post acerca da maneira como encaro este problema e esta decisão.
Coloco a matéria em causa ao nível dos conceitos e dos valores, para mim reduzidos ao da Liberdade Individual e o da Defesa da vida Humana. Entre os dois opto por aquele que me parece ser mais fundamental.

Que os economicistas se preocupem se quem paga são os tribunais ou os hospitais é-me indiferente. Nenhum mal virá às contas públicas por isso.

Que as mulheres defendam que é uma questão sua, discordo profundamente. As crianças ainda não são fruto de geração expontânea.

Que os legalistas considerem que têm, porque o pragmatismo assim o exige, de estabelecer um limite temporal razoável para denominar de vida humana um Ser, parece-me profundamente condenável, senão mesmo anti-ético.

A actual lei é ineficaz? Pois sim. As políticas de planeamento e outras que tais, falham? Pois sim.
Há muitas crianças que nascem de gravidez não desejada? Pois sim.
Há muitas mulheres que abortam? Em Portugal? em Espanha? Pois sim.
Que fazer?
Liberalizar o aborto? ( E por favor não me venham falar de despenalizações. Todos sabemos que uma conduz à outra) é uma hipótese!
Por isso essa hipótese está a votos.

Eu não dei por terminada a guerra da promoção de condições de vida dignas para os meus concidadãos, nem tão pouco a da defesa dos valores sociais e políticos que me parecem os mais acertados. Tenho, na medida das minhas possibilidades feito por isso.

O aborto não é uma solução. Para nada. Lamento pelas mulheres que recorrem ao aborto clandestino, mas também sei que há muito trabalho feito, ao nível estatal e da sociedade para apoiar essas mulheres e essas crianças.Se é uma questão economicista que está em causa, então existem muitas soluções. Se o problema se coloca ao nível da vaidade, da indisponibilidade ou da conveniência, não!
O Estado têm a obrigação de defender todos por igual.
A visão profundamente egoista das mulheres e dos homens que por essas razões de conveniência social, moral ou outra, afirmam de viva voz que têm o direito de por em causa a vida de outro ser humano, NÃO!

A Liberdade Individual não está acima da Vida Humana.

PBH disse...

Já agora, e apenas por apontamento, não desejando aprofundar outros temas que aqui se afloraram nos comentários, disponibilizo-me para debater a questão da eutanásia, ou os contornos da actual lei do aborto, que pela sua especificidade têm contornos muito diferentes deste debate e deste referendo.

Caro PSG
Eu não votarei Nim. Eu votarei Não!

Cara Lídia

O contexto das históris das mulheres e das crianças que relatei são indiferentes para o caso. São histórias dramáticas e só as tomei por exemplo porque, essas sim, são situações extremas, em que mães doentes dão à luz, crianças que nascem com risco da própria vida.São um exemplo de maternidade de risco, que nem por isso deixam de existir e sobretudo de ser apoiadas.

marcela castro disse...

Caro PBH, tu comentario esta claro, y es evidente que tomaste una decision, por las razones que expusiste. Solo apunto a que asi como tu opinion no va a cambiar, tampoco la de quienes seguiran recurriendo al aborto. Y ese dia, es seguro que alguna mujer estara abortando. Tu defiendes la postura sobre el derecho y el respeto a la vida, el problema es que hay mucha parte de humanos que difieren de ese concepto de vida que tienes. Por lo demas, ¿Que seria de la vida si vieramos todos las cosas de la misma forma?

Personalmente, me preocupa mas que te lleves una desilucion el 11 de febrero. Los criterios que para ti no importan, a otros si. Recuerdalo.

En Chile, a veces usamos una frase que, supuestamente, dijo el capitan Arturo Prat antes de morir en la Esmeralda, durante la Guerra del Pacifico, una expresion que usamos para referirnos a que nadie que crea en algo baje la bandera para sumarse al rebaño de los conformistas. "Compañeros, la contienda es desigual. Nunca nuestra bandera se ha arriado ante el enemigo, espero que no sea esta la ocasión de hacerlo. Mientras yo esté vivo, esa bandera flameará en su lugar, y os aseguro que si muero, mis oficiales sabrán cumplir con su deber." La contienda, meu caro PBH, es muy desigual, no bajes la bandera.

Lidia disse...

Caro PBH,
como saberás, tive oportunidade muito recentemente de acompanhar a par e passo a vida no útero, e para mim está precisamente em questão algo que não consideras importante, que é o momento em que começa a vida humana. O coração é um músculo que vive de energia. Actualmente há estudos avançados para os fazerem artificiais. O feijãozinho que às 10 semanas tem um pontinho minúsculo a bater não é para mim ainda vida humana. Os bébés indesejados que mal acabam de nascer são atirados para contentores, afogados ou mal-tratados pelos pais são para mim sim vidas humanas imensamente desperdiçadas e sofrimentos que podem ser antecipadamente prevenidos.
Mostrem-me estudos que demonstrem que uma despenalização do aborto conduzirá a um aumento das ocorrências. Num país onde se realizam entre 20000 a 40000 procedimentos anuais, fora os extra-territoriais, não me parece que vá haver esse problema. Deixa sim de estar na clandestinidade e passa a ser finalmente visto como um problema de saúde pública e um dado mais para a elaboração de políticas de sexualidade responsável.
Quanto aos casos que relataste, asseguro-te que nem todas as mulheres nasceram para mártires. Concordo em absoluto que a par da despenalização do aborto sejam tomados passos para a construção de condições que fomentem a maternidade, seja pelo sistema fiscal, pela regulamentação laboral ou pela segurança social. Da minha parte, prometo contribuir para o incremento da natalidade, de forma a que as preocupações demográficas não voltem a ser mais um argumento para as campanhas do sim.
Continuamos amigos, certo? :-)

PBH disse...

As preocupações demográficas fazem parte das preocupações do SIM? Essa é que eu não sabia...mas acho interessante!

Ambos já compreendemos que temos visões diferentes acerca daquilo que consideramos ser o ínicio da vida humana. Mas isso não é dramático. Felizmente a democracia permite-nos ir a votos. Digo-o sem fazer o mínimo juizo de valor sobre as mulheres que são mães, como é o teu caso.
No fundo, o aborto, independentemente das questões legais ou sanitárias, é uma questão de consciência. Essa pertencerá sempre a cada um de nós!
Não concordo com a hipótese do Estado abrir portas à liberalização. Como já tive oportunidade de afirmar, penso ser esse o primeiro passo para uma gradual e total liberalização.
Eu, porque sei que as sociedades se constroem com as pessoas, e porque não olho para o Estado como uma entidade imaginária, mas bastante concreta, onde as vontades e iniciativas individuais valem tudo, procurarei conduzir a minha acção de acordo com a minha consciência cívica.Assim façamos todos!
Continuamos amigos ;)