08 setembro 2007

CML: os domingueiros


"O Terreiro do Paço aos Domingos é das pessoas". A primeira coisa que nos ocorre (pelo menos assim foi comigo) é pensar que nos outros dias será de quem? Dos animais? Temos a sorte e a honra de dispor de uma praça com as características do terreiro onde já existiu o Real Paço da Ribeira destruído a 1 de Novembro de 1755. A frente ribeirinha desta praça foi destruída há uns anos, não por um terramoto, mas por umas obras que irão rapidamente destronar as de Santa Engrácia. Se for permitido irão. Não duvido. Se for...


É característico de uma nova equipa autárquica apresentar um projecto para o Terreiro do Paço (ou Praça do Comércio para alguns). Bom, esta medida está longe de ser um projecto, ou parte de algo passível de estar abrangido por essa denominação. É fácil, não será muito caro e quanto aos milhões só se for de carros que entopem outras vias quando a dita medida é aplicada, pois não é articulada com outras soluções complementares. Em termos de trânsito e não só. Fecha-se e pronto. As morosas e vergonhosas obras lá continuam (e todos os dias da semana). Pelo menos o estaleiro lá está!


A oferta cultural e de lazer é muito reduzida. Participei em tempos em um colóquio onde foi discutido que museus para a cidade de Lisboa. No Terreiro do Paço precisamente, no auditório com entrada pela Rua do Arsenal, no espaço onde em tempos que já lá vão foi a Casa da Índia. Do meu ponto de vista uma área urbana como o Terreiro do Paço, com as suas características presentes e passadas deve tentar uma convivência que se quer saudável entre zona de funcionamento de organismos públicos e zona de actividades culturais e de lazer. Se for só ministérios cumpre a função de centro histórico de poder político e de actividade do funcionalismo público mas perde, e muito, em termos de vida cultural, recreativa e turística. Se for só turismo desvirtua a praça e apresenta uma versão plastificada da vida lisboeta. Já sem falar que não concordo que tudo o que é edifício antigo (para simplificar utilizo este termo) deve ser um museu. Se por vezes pode ser uma boa solução muitas vezes não o é, quer pelo projecto em si quer pela banalização sem qualidade de opções desta natureza. Uma boa combinação entre estas duas valências pode ser uma bom destino.


Pode valorizar-se a história lisboeta e melhorar a oferta cultural da capital com um museu novo ou um núcleo museológico do Museu da Cidade. Áreas cobertas e ao ar livre para exposições e outros eventos culturais que qualifiquem a praça e a sua vida, quer diurna quer nocturna. Pode ser estudada a implementação de infraestruturas turísticas compatíveis com a arquitectura da praça e a sua vida social ( hotel, restauração mais diversificada, etc...). Mas teria de ocupar o espaço parcialmente, havendo paralelamente e sobretudo no período diurno a actividade de alguns ministérios.


Repito, assim a escolha não seria entre uma variante ou outra, mas a combinação desejável das duas.


Em tempos retirou-se, e bem, o inacreditável parque de estacionamento automóvel que rodeava a estátua de S.M. El-Rei D. José I. Concordo que o tráfego automóvel, deve ser retirado, ou pelo menos, condicionado em zonas do centro histórico. Mas tem de ser como resultado de decisões pensadas e programadas e não fruto de um qualquer impulso populista. Que só desorganiza e provoca o caos. E nada resolve, nem provisoriamente. Aqui a escolha também não é entre Terreiro do Paço sem carros ou com carros, pois vamos todos concordar que é melhor sem carros. O Dr. Costa assim deve ter pensado. Vamos agradar a todos. Mas engana-se. Em primeiro lugar não agrada certamente às pessoas que ficam retidas nas filas de trânsito de Domingo, qual período em que uma gigantesca árvore de Natal aí marca presença (outrora cobrindo por completo e sem pudor a estátua de S.M. El-Rei D. João I na vizinha Praça da Figueira). Depois é uma pseudo solução no imediato e quando os lisboetas constatarem que continua tudo na mesma, ou ainda pior em alguns aspectos, espera-se que sejam consequentes com as críticas (o que nem sempre é fácil de verificar no espírito português) e que penalizem os domingueiros que tiveram a sorte (ou não) de ser eleitos para conduzir os destinos políticos da cidade.


O Terreiro do Paço deve ser de todas as pessoas, todos os dias e por muitos anos! E não só aos domingos e tão somente para contemplar as arcadas, o arco, a estátua do Machado de Castro e acompanhar com amargura e pó (e lama no Inverno) os danosos trabalhos das obras do metropolitano.

3 comentários:

Pedro BH disse...

Caro André

Na verdade já tinha pensado no que significaria este encerramento ao trânsito do Terreiro do Paço aos Domingos.

Não faz sentido, pelo simples facto de que não obdece a nenhum plano. Trata-se apenas de uma ideia, mais ou menos populista. Retiram-se os automóveis entre as 08:00 e as 20:00, sim senhor. Mas com que fim?
Será que os Lisboetas vão mais à Baixa por causa disso? Gozam melhor o Terreiro do Paço? Não me parece na verdade. E não me parece, porque os Lisboetas têm muito pouco a gozar no Terreiro do Paço. É um conjunto monumental notável,mas sem qualquer utilização que permita o seu usufruto por parte dos Cidadãos.

Há anos que defendo que o Museu da Cidade deveria ocupar a ala oriental daquela Praça. É o espaço mais digno para o fazer, requalificando o Museu (decrépito e decadente do Campo Grande) e dotando aquela praça de um espaço cultural de excelência, de conhecimento e interpetação da Cidade.

Infelizmente não creio que o actual executivo camarário esteja muito sensibilizado para essas questões, assim como aqueles que o antecederam.

É o resultado de ter domingueiros a governar domingueiros.

RM disse...

E se em vez de reclamarem tanto, pegassem num bom livro, por exemplo, e fossem até ao Terreiro do Paço aproveitar o sol e o bom tempo que tantos e tantos Domingos faz em Lisboa... viver aí, e passar o Domingo em casa, isso sim, é uma ideia lamentável!

António de Almeida disse...

-Encerrar o trânsito no Terreiro do Paço ao domingo até poderia ser uma boa ideia, repito poderia se, existissem habitantes na zona que pudessem calmamente disfrutar da zona saindo de suas casas e passeando a pé, se existissem parques de estacionamento em redor, a preços acessiveis para que as pessoas que não habitam na zona a ela pudessem aceder, se a zona fosse capaz de atrair um maior número de visitantes do que os actuais, o que só poderia acontecer com uma maior oferta de pontos de interesse na zona, assim mais parece esta ser apenas uma medida avulsa, tipicamente portuguesa, construir uma casa começando pelo telhado. Entretanto também deveriam recolocar o cais das colunas, para atrairem os pescadores ás corvinas do "Zé"!