30 junho 2008

Lisboa: de Costa à contra Costa

Começo na zona oriental da cidade.

Por deliberação da Câmara Municipal de Lisboa o rés-do-chão e cave do emblemático Palácio da Mitra vão ser arrendados à Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE) por 350,00 € mensais enquanto as futuras instalações para a sua sede na zona das Olaias não estão prontas.
O edifício histórico na posse da autarquia lisboeta desde 1930 apesar de sofrer vários atropelos ao longo do seu caminho acaba por assumir um papel de dignidade municipal ao acolher o Museu da Cidade entre 1941 e 1973 (independentemente das opcções museológicas na época poderem ser hoje contestadas, sobretudo à luz da museologia contemporânea). Será que ao longo de todo este tempo não se pensou um pouco na melhor forma de valorizar tal palácio? Manifestamente não. O Palácio Pimenta no Campo Grande para onde se mudou o Museu da Cidade em 1973 apresenta sinais claros que a falta de prioridade atribuída à recuperação de edifícios históricos (e também a uma mais clara política museológica municipal) afecta o actual espaço museológico que conta a história de Lisboa (ainda que de forma incompleta). Se não existe forma de se avançar com a recuperação do actual museu quanto mais do edifício onde esteve sediado o antigo! Já não bastando esta falta de preservação e valorização do património arquitectónico urbano junta-se-lhe aquilo que a meu ver deve ser tido por uma gestão danosa do imóvel municipal. 350 € por mês e um período de carência de cinco anos! (na prática não há lugar ao pagamento de renda). Mais vale assumirem de vez que pretendem que o edifício caia de velho. Isso sim seria ainda mais grave do que gestão danosa.




Desembarque no Terreiro do Paço.

Outro episódio do périplo na selva lisboeta prende-se com a utilização do Terreiro do Paço aos Domingos (o tal dia em que é das pessoas...). O Pátio da Galé (ala ocidental) tem sido palco de vários acontecimentos organizados pela autarquia. O festival do peixe (aproveito para recordar também o dia da sopa no Palácio de S. Bento) entre outros marcaram presença no dito espaço. A qualidade e o bom gosto (que é sempre discutível...) não têm sido as tónicas dominantes. Agora podemos ver uma exposição sobre o Plano da Baixa (1758-2008). É uma reconversão do projecto de exposição que deveria ter sido inaugurada em 2005 por ocasião dos 250 anos do grande terramoto. Houve complicações de vária ordem e não abriu. Surge agora esta exposição.
O comissariado científico é da responsabilidade dos professores Ana Tostões e Walter Rossa cujas qualidades académicas e científicas são insuspeitas. No que diz respeito à organização e montagem já não serei tão peremptório. Neste momento o Pátio da Galé não oferece condições para uma exposição de qualidade. A sua requalificação está incompleta pois pretendeu-se começar a "casa pelo telhado". Programaram-se actividades para o local (programação também ela discutível) e depois logo se procederá (quando?!) à reabilitação do dito pátio. Apresenta ainda estruturas de telhados com chapas de zinco ou de plástico que para além do mau aspecto imediato (bem como as casas de banho existentes) provocam um grande aumento de temperatura no seu interior, o que não é agradável para os visitantes e sobretudo não é nada recomendável para os objectos expostos. O corredor de entrada com a sua passadeira encarnada engelhada e algo suja, umas esvoaçantes cortinas pretas dos lados e a sinalética inicial são manifestamente produtos de fabrico amador.
O circuito da exposição acaba por se tornar um pouco confuso acabando o visitante por se dispersar e perder, de alguma forma, o fio condutor. Outros aspectos criticáveis são o tratamento dado ao período entre 1756 e 1758 do qual existe informação histórica escassa e que foi tratado museograficamente com bastante exagero ao entrarmos numa quase câmara escura onde sobressaem umas luzes roxas; um outro é o terminar da exposição, já próximo da saída onde figura uma réplica branca em grande formato da estátua equestre de D. José I cujo original da autoria de Machado de Castro pode ser apreciado a dois passos bem no centro do Terreiro do Paço. Também o transporte da grande maqueta concebida pelo olissipógrafo Matos Sequeira do Campo Grande para o Terreiro do Paço não me parece o mais apropriado.

Gostei da diversificação da abordagem (ainda que não propriamente organizada da forma mais conviniente) pelos seguintes aspectos: Informação histórica geral e outra mais específica de carácter urbanístico, arquitectónico e de engenharia; apresentação ao início de acontecimentos semelhantes, numa perspectiva comparativa, ao terramoto de 1 de Novembro de 1755 que ocorreram anteriormente em Itália (na Sicília com a erupção do Etna) e no final uma visão de relance e de futuro da zona Baixa/Chiado e respectiva reabilitação (espero que não tão longínqua quanto isso apesar da criação da Sociedade de Reabilitação Urbana).

A exposição passa muito por temas de arquitectura e engenharia...não deveria a autarquia lisboeta saber que não se começa a fazer uma casa pelo telhado?

Como as costas já vão largas e tenho margem para futuros "postes"deixo para uma outra oportunidade a reabilitação da frente ribeirinha que começa mal (pelo menos é um mau indício) com a saída mais do que prematura de José Miguel Júdice da sua direcção.

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